Como publiquei meu livro de forma independente até conseguir uma editora.


Algumas pessoas já me perguntaram como foi o processo de escrita do "O sorriso da hiena" e a experiência de publicação independente. Resolvi fazer esse post para contar com mais detalhes como tudo aconteceu, desde a primeira fagulha da ideia até aqui. Foram alguns aprendizados, erros e acertos. Espero que essas informações possam ajudar um pouco quem também quer colocar suas histórias no mundo.


O começo: escrevendo e reescrevendo.
Eu levei mais de três anos escrevendo "O sorriso da hiena". A ideia original nasceu quando eu me mudei pela primeira vez para Florianópolis e ela ficou engavetada na pasta de ideias. Era apenas um princípio de história: uma pessoa que passou por um violento trauma na infância quer descobrir se esse evento foi responsável por ela se tornar a pessoa má que é hoje, então ela irá repetir o mesmo ato que ocorreu no seu passado com outras famílias com crianças na mesma idade que ele tinha na época para saber se, quando elas crescerem, essas crianças, agora adultas, se tornarão pessoas boas ou más.

Esse pavio de ideia foi comigo quando mudei para São Paulo e foi lá que comecei a escrever pra valer o livro. Escrevia durante a noite, depois do trabalho. Nas férias, peguei vinte dias e me enfiei no sítio de um amigo em Atibaia para ficar longe de tudo, sem internet, só o tempo e o computador.

Mas não foi neste período que eu terminei a história. Ela só recebeu o ponto final na última página muitos meses depois. E é por isso que vai uma dica valiosa abaixo.


Tenha um prazo.
São vários os motivos para ter levado mais de três anos para escrever o livro. Foi a minha primeira história longa, então é o momento que você vai descobrindo como funciona e como não funciona. Fui testando e criando, mudei de ideia várias vezes, foi um aprendizado durante o processo. E algo que aprendi ser muito positivo para terminar uma história é: ter um prazo.

Tenha um prazo. Coloque uma data para terminar sua história. Mas seja realista. Se for a sua primeira história, como era a minha, será difícil ter uma ideia exata de quanto você demora para escrever com qualidade.
É ótimo ter alguém lhe cobrando. Alguém para quem você precisa entregar o original final. Esse foi um dos principais motivos para eu ter feito uma oficina de escrita. Nesta oficina os participantes tinham que levar um projeto que estava encaminhado para finalizarem no decorrer da oficina. Isso fez toda a diferença. Eu tinha que terminar a história. Era prazer, mas também trabalho. Alguém iria me perguntar: e aí, como foi a escrita essa semana? Como está? Deixa eu ler. Leia um trecho.

Você pode QUERER colocar suas histórias no mundo. Mas nada vai fazer você trabalhar com mais disciplina do que você também TER que fazer isso.

Por isso, recomendo muito o ingresso em oficinas e cursos de escrita onde você leva seu projeto para trabalhar nas aulas. É ótimo para você não perder o foco. Além do mais, a gente aprende técnicas, recebe opiniões sinceras e profissionais, conhece pessoas do mercado literário. Enfim, só tem vantagens. O curso que fiz foi na Hussardos Clube Literário, com o escritor Marcelino Freire.


O livro nunca vai estar pronto.
Uma coisa que também aprendi nesse processo de escrita é que um livro nunca fica pronto para o autor. Sério. Nunca. Eu voltei a me mudar para Florianópolis, onde estou atualmente, justamente para me dedicar mais à literatura. O livro ainda não estava 100% pronto, então caí de cabeça para terminá-lo. E foi aí que descobri que isso nunca iria acontecer. Sempre que eu terminava e relia eu mexia em algo. Um trecho no começo, uma passagem em tal momento. Foi quando li em algum lugar que chega uma hora que você precisa abrir mão e deixar seu livro ganhar o mundo. Claro que é preciso escrever e reescrever até você achar que a história que quer contar está ali, mas você sempre vai querer mudar alguma coisa. Nós, como pessoas, mudamos todos os dias, nossos pensamentos mudam, sentimentos também, por isso o que escrevemos ontem tem uma chance enorme de não ser o que a gente escreveria hoje.
"Aquela frase longa talvez ficasse melhor quebrada em duas."
"Esse diálogo, eu escreveria de outro jeito."
"Essa ideia, não sei se concordo com ela ainda."

Escreva com cuidado, busque seu melhor, sem pressa mas com disciplina, e tente encontrar o momento em que você precisa desapegar e deixar a história ir para as mãos de outras pessoas.


Leitura crítica.
Normalmente entregamos o original da nossa história para pessoas próximas, principalmente amigos. Mas nunca se esqueça que eles são amigos e não importa o quanto sejam sinceros, mesmo as opiniões mais honestas dos amigos são infectadas pela gentileza da amizade. Eles querem te ajudar (e ajudam), mas eles não são leitores comuns. São leitores próximos demais. Selecione alguns com hábito de leitura e aqueles que você acha que irão tentar deixar o amor por você de lado.
Mas, se possível, tente entregar seu original para pessoas que você não tem contato íntimo. Existem profissionais do mercado literário que oferecem o trabalho de "leitura crítica". Faça uma pesquisa para encontrá-los. Mas pesquise bem. Charlatões e pessoas que só querem seu dinheiro existem em toda área, no mercado literário não é diferente.
Foi através da leitura crítica que conheci a Marianna Teixeira Soares, que meses depois veio a se tornar minha agente literária. Como eu resolvi lançar o livro de forma independente, queria uma visão profissional da história, e o leitor crítico funciona quase como um editor para o autor independente. Ele aponta pontos que poderiam ser melhorados, cortados e muitos outros para que você possa arredondar ainda mais sua história. A leitura crítica pode custar um valor razoável, mas é um investimento que vale a pena.


Contrate um bom revisor.
Mesmo assim, é muito provável que alguma coisa ainda passe. Quantos livros de editoras gigantes eu já não li com erros. E isso é normal. Deve ser feito um grande esforço para evitá-los, mas eles acontecem. Mesmo que você se ache o professor(a) de português, mesmo que você seja um, faça uma revisão com alguém de fora. Quando a gente escreve e reescreve tantas vezes acabamos lendo de forma automática porque já sabemos o que vem pela frente. E isso é só um dos motivos. Quando você pega sua história revisada é que se dá conta de quanta coisa deixou passar. Além disso, um bom revisor dá sugestões de construções estranhas, nota palavras repetidas em excesso, uma infinidade de benefícios.
Não coloque seu livro no mundo sem passar por uma boa revisão. Duas vezes, no mínimo. Principalmente depois da diagramação.


Projeto gráfico. Como faço?
Eu tive uma facilidade para a produção do meu livro. Como trabalhava em uma agência de publicidade, tinha ao meu redor todos os profissionais necessários para fazer tudo ali mesmo. Diagramação, revisão, finalização de arquivo, capa, tudo foi feito por amigos da agência que cobraram um valor camarada. Além disso, foi o produtor gráfico da agência que fez as negociações com as gráficas, conseguindo um preço que com certeza eu não conseguiria negociando sozinho.
É possível encontrar profissionais dessas áreas que fazem esse trabalho como freelas. Cada um tem seu preço e sua qualidade de trabalho, então é preciso pesquisar. Mas, resumindo, você precisa de quem: (1) revise, (2) faça a diagramação do texto e gere o arquivo final, (3) crie a capa e (4) uma gráfica.
Também existem sites/empresas que fazem tudo pra você. Você apenas manda a história e eles criam tudo, imprimem e mandam para a sua casa. O custo benefício de um para outro vai depender dos seus contatos e vontade de ir pesquisar os profissionais.

Dica importante: pague uma metade do serviço no começo do trabalho e a segunda metade apenas quando ele for feito. E direito. PRINCIPALMENTE com gráficas. Nunca pague o valor total para a gráfica. E pesquise bem com qual delas vai fazer. Eu mandei imprimir 500 exemplares. E mandei todos de volta porque estavam cheio de erros: manchas na capa, folhas internas cheias de riscos de tinta, até folha encadernada de cabeça para baixo tinha, sem contar outras erros graves. Então não se esqueça, a segunda parte do valor só quando o trabalho estiver em suas mãos e bem feito.

Além disso, peça orientações antes de enviar o arquivo. Se você enviar um arquivo errado para a gráfica e a impressão conter erros que vieram de você o prejuízo será seu. Antes de realmente apertar o start, converse e se acerte.

Outra dica importante: toda a conversa deve ser feita por e-mail. Tenha tudo que for acertado registrado. TUDO. Nada de acertar detalhes por telefone. Mas, se fizer isso, logo em seguida mande um e-mail registrando o que foi dito e peça para que a pessoa do outro lado (e todos os envolvidos, se for o caso) responda a este e-mail confirmando o acerto.
Só enviar o e-mail não adianta de nada. Você precisa que a pessoa se comprometa por escrito, porque se algo sair errado você tem como provar para não ficar no prejuízo.


Não se esqueça dos e-books.
É a realização de um sonho ter o livro impresso nas mãos. Folhear as páginas, sentir o cheiro do papel. E com certeza o livro físico é algo bacana de vender, afinal, grande parte dos leitores ainda prefere assim.
Mas não se esqueça das possibilidades de e-books. Eles agilizam o caminho para os primeiros leitores, ainda mais porque, como autor estreante e independente, existe sempre aquele receio do leitor em gastar dinheiro e tempo com histórias de quem está começando. Os e-books são mais baratos (pelo menos deveriam ser) e você pode até colocar de graça por determinados momentos. Não tem frete, trabalho com embalagem.

Você pode colocar seu e-book sem pagar nada por isso em:

  1. Amazon

  2. Kobo

  3. Saraiva

Disparado a Amazon é a melhor plataforma de todas. Depois o Kobo. E só depois o Publique-se, da Saraiva.

Dica: a diagramação de e-books tem alguns detalhes específicos já que ele se adapta ao leitor. Eu mesmo fiz a diagramação do meu, neste caso, utilizando o arquivo feito para a gráfica. Mas eu recebi alguns feedbacks de pessoas que não gostaram muito da diagramação no e-book. Pesquise melhor do que eu ou contrate alguém que saiba fazer isso e você não terá esse problema ;)


Não se preocupe em ganhar dinheiro. Não no começo.
Primeiro, porque a gente não ganha mesmo. Até para autores que já estão no mercado há anos é difícil ganhar dinheiro, imagine para nós que ninguém conhece. Você precisa ter isso em mente por dois motivos.
1) para não se frustrar.
2) o foco agora é ser lido. Espalhar sua história. O dinheiro que você investiu e vai continuar investindo é para isso. Criar um nome. Mostrar para as pessoas que você existe.

Quando calculei o valor para venda dos meus exemplares independentes, coloquei no papel os custos e o quanto poderia colocar a mais para ter algum retorno para reinvestir no livro (na divulgação). É como uma empresa. O que você ganhar é para voltar para empresa. Cuidado para não colocar um valor alto demais no seu exemplar. Se o preço do seu livro for muito caro irá limitar as pessoas que irão apostar nele. Poucos vão pagar por um livro de R$40,00 de um autor que não conhece quando ele pode pegar esse dinheiro e comprar o best-seller do momento que todo mundo está falando tão bem.
Mas também não cobre um valor muito baixo. Um valor baixo ao extremo desvaloriza seu trabalho. As pessoas querem pagar pouco, mas não confiam muito em algo barato demais.


Falando em dinheiro: saiba economizar nos Correios.
Nos primeiros dias que eu comecei a vender os livros físicos pela internet eu não sabia que existia uma forma de envio econômico para livros. Um erro bobo que eu poderia ter evitado com uma pesquisa melhor. Então, além do preço do livro existia um custo de frete que às vezes ficava mais caro do que o próprio livro. E isso é um buraco enorme no seu barco.
Envie pelos Correios como Registro Módico. É um jeito de enviar livros de forma mais barata, com um preço fixo que varia só pelo peso e não pela distância. Então, seu livro terá o mesmo custo para qualquer lugar do país. E um custo menor do que o normal.


A divulgação é tão importante quanto sua história.
Você pode ter escrito um livro maravilhoso, com uma trama incrível e personagens fascinantes que farão as pessoas se apaixonarem por eles depois de ler. Mas primeiro você precisa que elas leiam.
A internet facilitou a nossa vida neste quesito. Principalmente porque existem diversos canais literários em redes sociais como Instagram e YouTube. E eu posso falar por experiência própria que esses canais são o melhor meio para um autor independente aparecer. E a melhor coisa, para nós autores, é que eles estão super abertos a novidades, muito mais do que qualquer outra mídia. E o seu potencial de comunicação é altíssimo.
Os canais literários são especializados nisso. As pessoas vão atrás do que eles estão falando e confiam em suas indicações.
Converse com os donos dos canais literários e descubra quais são as possibilidades de trabalho com eles. Muitos não cobram para você enviar seu livro, outros possuem pacotes de trabalho (publieditoriais) com diferentes valores. E, acredite, vale a pena pagar se você puder. Primeiro porque o trabalho que eles fazem vale o custo. Deve dar um trabalho do cacete fazer vídeos no YouTube da forma como eles fazem. Eles gastam o tempo deles, usam equipamentos deles (muitas vezes caros), tiram fotos incríveis do seu trabalho, fazem resenhas detalhadas e instigantes.

Dica: não seja arrogante. Se um canal literário aceitou seu livro sem receber nenhum pagamento ele não é obrigado a falar dele no canal, a postar foto, ele não é obrigado nem a gostar (mesmo se você pagar). Aliás, aceite o fato de que isso provavelmente vai acontecer. O fato de você mandar o livro não lhe dá o direito de exigir nada.

Nós enviamos porque queremos. Sabemos dos riscos. Mas também sabemos do quanto eles podem fazer pelo autor independente. Enviamos porque precisamos mais deles do que eles de nós.

Seja gentil, educado e sincero que muitas portas irão se abrir.

Grite cada conquista.
Alguém falou bem do seu livro. Mostre isso para o mundo. Sua história apareceu no ranking dos livros mais lidos em um site de uma cidadezinha do interior da cochinchina? Coloque essa notícia em todas as redes sociais como se fosse a coisa mais incrível do mundo. Não vamos aparecer no mais lidos do New York Times de cara, né? Celebre as pequenas conquistas. Primeiro porque vai fazer bem pra você. Segundo porque pode gerar a curiosidade de outras pessoas. Todo mundo ao seu redor é um potencial leitor, eles precisam saber que você existe. Se tem motivo para falar do seu livro, fale.

Use as redes sociais.
Se você não é familiarizado com elas, vai ter que aprender. Não tem jeito. Existe um infinidade de matérias, sites e tutoriais explicando como usar redes socias. Aprenda sobre isso. Pesquise o que outros autores estão fazendo.
E aprenda a se divertir com essa parte. Ela vai ocupar bastante seu tempo. Além disso, vai lhe colocar em contato direto com seus leitores. O que é muito gratificante e recompensador. Aproveite a melhor coisa de ser pequeno: estar próximo.


Relaxe com as críticas
Talvez as pessoas gostem do que você escreveu. Talvez não. Sabe o que você tem que fazer quando isso acontecer: nada. Não questione uma crítica negativa. As pessoas tem todo o direito de não gostar.
E se você consegue ler críticas negativas sem ter uma úlcera, leia. As críticas negativas, para nós que estamos começando, é a melhor maneira de saber o que as pessoas estão interpretando da nossa história.
Lembre-se: existe crítica boa e crítica ruim. E crítica boa nem sempre é a positiva. Uma crítica negativa pode ser boa quando feita com critério e argumentos. E até mesmo quando não tem motivo, às vezes simplesmente a história não bateu para tal pessoa, e está tudo bem, acontece. A crítica ruim é aquela que você lê e sabe que é "falar mal por falar mal". Deixe seus sentimentos de lado para enxergar com um olhar de fora e identificar a intenção de cada uma delas.  


Como "O sorriso da hiena" conseguiu o sim de uma boa editora.
Antes de partir para a publicação independente, entrei em contato com todas as editoras. Praticamente todas mesmo. Comecei com as maiores, depois as médias, e depois as pequenas. Caçava os e-mails dos editores na internet e enviava uma mensagem para eles. Muitos responderam. Muitos outros não. Alguns foram atenciosos. Outros foram diretos: "não estamos abertos para originais nacionais pelos próximos dois anos".
Não se deixe empolgar demais com respostas atenciosas, mas também não desanime com respostas negativas. Elas serão a grande maioria.

Recomendo tentar as editoras antes de partir para a publicação independente. Não foi a forma como deu certo comigo, mas pode ser a que dê certo para você. Se acontecer, vai lhe poupar um trabalhão.

Procure quem são os editores das editoras que publicam livros do mesmo gênero que o seu, dê um jeito de arrumar seus e-mails (Google) e entre em contato. Não entre em contato com muitos editores da mesma editora de uma vez. Isso pode queimar seu filme. Tente um, espere um tempo para ver se responde, caso não, aí sim tente outro. Uma resposta leva tempo (quando vem). Tenha paciência. É um saco, mas faz parte.

Foi depois de toda essa jornada com as editoras que resolvi partir para a publicação independente e fiz tudo o que citei acima. Foi após a publicação independente que consegui chamar atenção de uma boa agente literária, que depois conseguiu o contrato com uma boa editora, a Verus, do Grupo Editorial Record.


Lembre-se: os maiores também começaram pequeno.
Conseguir um espaço no mercado literário dá trabalho. Exige muito mais do que escrever bem. Exige paciência, amor pelas suas histórias, exige uma certeza que está dentro de você e que não encontrará em mais nenhum outro lugar. Parece papo barato de autoajuda, mas é verdade. Em qualquer carreira artística as chances de você ter uma posição de destaque são muito menores do que as chances de sucesso. Mas se você está cagando para as possibilidades de dar errado e abre um sorriso sempre que imagina a possibilidade de dar certo, isso é tudo que você precisa. É esse desejo que vai fazer você trabalhar duro para ir atrás dos seus objetivos. Sonhe, coloque disciplina e vontade no seu sonho e vá em frente.

Espero que você possa tirar algum proveito do que escrevi acima e que algo aqui possa lhe ajudar nesse caminho. Boa sorte e sucesso ;)